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Cooperativa dos Floricultores do Estado da Paraíba, em Pilões (PB). Créditos: Brenda Alcântara/NITRO

Patrimônio do cooperativismo

 

“Cooperativas do Brasil: retratos de um mundo melhor” documenta o aspecto humano do cooperativismo em todos os estados brasileiros

 

Mais de 570 mil brasileiros encontram na cooperação uma forma mais justa de trabalhar. Da agricultura familiar à geração de crédito, saúde ou artesanato, esses trabalhadores estão à frente de aproximadamente 4.500 cooperativas espalhadas por 26 estados e Distrito Federal – seis a cada 10 municípios do país têm uma. E elas reúnem, ao todo, 26 milhões de cooperados.

Se os números impressionam, as histórias por trás deles revelam sua humanidade, como mostra o livro e a exposição “Cooperativas do Brasil: retratos de um mundo melhor”, iniciativa que usa o poder fotografia para narrar a força e a beleza do trabalho coletivo em um país plural.

“Frequentemente apresentamos o cooperativismo por meio de indicadores e resultados econômicos. Eles são importantes e demonstram a dimensão do nosso movimento, mas queríamos ir além e revelar as pessoas que dão vida a esses resultados: seus rostos, suas histórias, suas comunidades e os impactos que as cooperativas promovem na vida de milhões de brasileiros”, conta Samara Araujo, gerente de Marketing e Comunicação do Sistema OCB (Organização das Cooperativas Brasileiras), idealizador do projeto.

 

Guarabira (PE). Sicredi Evolução. Alunos do quinto ano da Escola Municipal Nazilda da Cunha Moura observando a caixa que faz parte do projeto de jovens empreendedores apoiado pelo Sicredi – Sicredi Evolução. Créditos: Brenda Alcântara/NITRO

 

Ela conta que o Ano Internacional das Cooperativas, declarado pela ONU em 2025, representou uma oportunidade histórica para mostrar ao mundo a relevância do cooperativismo e foi desse propósito que nasceu o projeto. “Queríamos deixar um legado que registrasse, de forma humana e permanente, a diversidade, a riqueza e a força do cooperativismo brasileiro.”

A ideia inicial da OCB era convidar a NITRO para integrar a equipe de um filme documental sobre as cooperativas, lembra Leo Drumond. “No final de 2024 surgiu esse convite, faríamos o making of do documentário. Mas enxergando o potencial do projeto, apresentamos outras possibilidades de conteúdo (um banco de imagens) a partir das nossas experiências em campo – já percorremos o Brasil todo contando histórias. Os nossos livros, fruto de expedições por lugares remotos, chamaram atenção da OCB e a nossa atuação tomou outro rumo. Como uma publicação já estava prevista pelo projeto, também assumimos a produção do livro que conta com os escritores Ana Paula Carvalhais, Carolina Grohmann e Gustavo Nolasco, além de uma rede de fotógrafos que percorreu o Brasil inteiro.”

Pé na estrada

Banco de carro, beira de estrada, saguão de rodoviária e de aeroporto fizerem as vezes de escritório – foram mais de 50 mil quilômetros percorridos por uma rede de 10 fotógrafos, de diversas regiões do Brasil. Juntos, Alexandre Rezende, Brenda Alcântara, Bruno Kelly, Douglas Magno, Gabriel Moreira, João Marcos Rosa, Leo Drumond, Lucas Godoy, Michel Dantas, Ricardo Jaeger e Ueslei Marcelino trouxeram a essência do trabalho coletivo para as fotografias.

Por incrível que pareça, tamanha jornada fluiu sem muitos sobressaltos, relata Drumond. “Por termos muita experiência em campo, assumimos esse trabalho com certa tranquilidade e tivemos poucas mudanças no caminho. A questão do deslocamento foi a mais complexa. Em alguns lugares tivemos que contratar um motorista, pois só ele sabia como chegar ao lugar, em outros, o deslocamento só era possível de barco. Mas se pensarmos no projeto como um todo, foram 60 cooperativas retratadas, ficamos impressionados como tudo fluiu tranquilamente.”

 

Serra da Canastra (MG). Colaboradores da principal cooperativa do Sicoob na região da Serra da Canastra, o Sicoob Sarom. Créditos: Leo Drumond/NITRO

Linguagem visual

 

Mostrar a força do coletivo e, ao mesmo tempo, a identidade de cada cooperativa era um pré-requisito do projeto. Ao lado da fotógrafa Luísa Dörr, que assina a curadoria, a NITRO criou uma linguagem visual para orientar a equipe de fotógrafos. “Foi uma espécie de manual, com orientações estéticas e técnicas para evidenciar a forma que o projeto queria retratar essas pessoas e o fruto do seu trabalho. O manual foi um norte para mantermos uma unidade de linguagem, e, claro, respeitar cada profissional.”

Para a fotógrafa Brenda Alcântara, que fez a foto de capa do livro e documentou as cooperativas nordestinas, por mais diversas que sejam as cooperativas (territórios, tamanhos e linhas de atuação), é importante ressaltar que cada uma tem a sua identidade, e que essa identidade conversa diretamente com diferentes culturas e territórios. Assim como o Brasil, o nordeste são muitos, ela destaca.

“Foi vivenciando diferentes realidades entre as cooperativas que consegui entender essa diversidade. Me provocou uma expansão no olhar, uma ruptura da ideia de que o cooperativismo é atrelado a um processo institucional apenas. Vi um movimento muito mais humanizado, uma vontade coletiva de gerar um trabalho melhor para todos. Foi muito importante conseguir mostrar esse aspecto, agregar valor a cada identidade, a cada território, por meio da fotografia.”

Segundo Alcântara, a foto da capa do livro, com crianças em uma escola, ilustra bem a ideia do cooperativismo. “É como abrir um portal para um mundo melhor que a gente quer acreditar. As cooperativas são diferentes, mas são unidas nesse mesmo propósito. E as crianças simbolizam essa relação com o futuro que todos nós desejamos. A foto comunica toda essa humanidade.”

Para Leo Drumond, o projeto fortalece essas pessoas, mostra a beleza, a brasilidade dos saberes, dos fazeres, principalmente em tempos de IA, em um mundo onde a imagem tem uma força gigantesca. “Nada supera pessoas de verdade, com seus produtos e saberes de verdade, praticando o cooperativismo no Brasil. O princípio do trabalho coletivo por si só é muito potente, o que é exaltado nas fotografias do projeto.”

Samara Araujo também ressalta o poder da fotografia. “Ela cria conexão emocional de forma imediata. Em poucos segundos, uma imagem consegue transmitir pertencimento, identidade e significado de uma maneira que muitas vezes páginas inteiras de texto não conseguem. A contribuição da NITRO foi decisiva justamente por lançar um olhar sensível, respeitoso e profundamente humano sobre as pessoas retratadas.”

 

Santarém (PA). A Turiarte, Cooperativa de Turismo e Artesanato da Floresta é focada na produção de artesanato sustentável. Créditos: Bruno Kelly/NITRO

A fotografia e o cooperativismo

 

Araújo destaca que o trabalho buscou revelar a autenticidade do cotidiano das cooperativas, quem são seus cooperados, como vivem, trabalham e transformam suas comunidades. Essa sensibilidade permitiu transformar histórias locais em uma narrativa nacional sobre cooperação.

“Uma das grandes forças da fotografia é tornar visível aquilo que, muitas vezes, passa despercebido. Quando vemos lado a lado uma cooperada do semiárido, um produtor rural da Amazônia, uma médica cooperada do Sudeste, uma artesã do Centro-Oeste ou um dirigente de uma cooperativa de crédito, compreendemos de forma muito concreta que o cooperativismo é plural, diverso e, acima de tudo, profundamente humano.”

Do ponto de vista institucional, ela ressalta que a fotografia é uma ferramenta poderosa para fortalecer a imagem do cooperativismo porque aproxima o movimento das pessoas. As fotos ampliam a compreensão de que cooperativas são comunidades de pessoas que trabalham juntas para gerar prosperidade compartilhada, o que ultrapassa o conceito simplificado de organização meramente econômica.

 

Cabo de Santo Agostinho (PE). Agricultura familiar e aquicultura na COPACOA. Créditos: Brenda Alcântara/NITRO

Impactos e legado

 

Um dos resultados mais gratificantes do projeto, conta Samara Araujo, “tem sido perceber o orgulho de quem participou dessa iniciativa. Muitos cooperados se reconheceram nas imagens e nas histórias apresentadas, e isso fortaleceu o sentimento de pertencimento a um movimento muito maior do que a realidade de cada cooperativa. Ao reunir experiências de todas as regiões do país em uma mesma obra, mostramos que cada cooperativa integra uma rede nacional capaz de transformar comunidades e gerar impacto positivo em larga escala.”

O livro foi distribuído às cooperativas participantes, a parceiros institucionais e a representantes dos Três Poderes, o que permitiu ampliar o alcance dessa narrativa junto a públicos estratégicos. “Além disso, disponibilizamos gratuitamente a versão digital para permitir que qualquer pessoa tenha acesso às histórias e conheça melhor a diversidade do cooperativismo brasileiro”, sublinha Araújo.

A exposição fotográfica também cumpriu um papel importante nas celebrações de encerramento do Ano Internacional das Cooperativas em Brasília. Ela esteve presente no lançamento do livro, realizado no Palácio do Itamaraty, passou pelo Cine Brasília e integrou a cerimônia do Prêmio SomosCoop Excelência em Gestão. Posteriormente, os totens da exposição foram doados à Casa Cooperativa, onde permanecerão preservados e acessíveis como parte desse legado.

“Mais do que uma ação comemorativa, entendemos Cooperativas do Brasil: retratos de um mundo melhor como um patrimônio para o cooperativismo brasileiro. O livro, a exposição e todo o acervo produzido registram um momento histórico do nosso movimento e ajudam a preservar sua memória.”

 

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