Imenso em território, grandioso em culturas, tradições e identidades: assim é o Cerrado brasileiro, bioma que ocupa mais de 25% do território nacional. Atravessá-lo em busca de histórias exigiu do projeto “Cerrado: a raiz do Brasil” pesquisas prévias para identificar tamanha diversidade, nas diferentes regiões do país. Investigação que permanece na estrada, junto de quem vive o Cerrado: os encontros com personagens vêm se desdobrando em outros e trazendo gratas surpresas ao projeto. Para conversar sobre esse processo, convidamos para um dedo de prosa a historiadora Marina Camisasca (que fez a pesquisa de pré-produção) e a produtora Camila Almeida, responsável pelo contato com os personagens.
A partir da investigação histórica e cultural do Cerrado em nove estados brasileiros, o projeto vai lançar um livro e um filme com um mapa cultural inédito do bioma. Para se chegar a essas tradições foi necessário fazer pesquisas antes de ir a campo. O que foi prioridade?
Marina Camisasca: a pesquisa priorizou os locais onde houvessem tradições culturais, patrimônios materiais e imateriais, comunidades tradicionais, comunidades quilombolas. Foi a partir desses critérios que as rotas da expedição foram construídas. Mas a expedição em si, o campo, acaba trazendo outros elementos, revela surpresas que a pesquisa em fontes oficiais não revela.

Conte mais sobre esse processo de pesquisa, quais foram as fontes?
Marina Camisasca: me pautei pelas fontes oficiais, os Institutos de Patrimônio Histórico e Artístico, tanto nacional quanto os institutos estaduais, nos nove estados onde o cerrado prevalece. A partir da pesquisa documental, identifiquei locais históricos e com forte tradição cultural. Para citar alguns exemplos, foram identificadas tradições importantes nas regiões de Serra das Araras, Caverna do Peruaçu, Vão dos Buracos, esses em Minas Gerais; no Mato Grosso do Sul, a comunidade de Dourados e a própria capital, Campo Grande, com várias tradições que estarão no livro e no filme “Cerrado: a raiz do Brasil”.
Um dos processos fundamentais para fazer o projeto “Cerrado: a raiz do Brasil” acontecer é acessar as pessoas que vivem o dia a dia desse bioma. Conte pra gente como tem sido esses contatos.
Camila Almeida: buscamos pessoas que tenham uma relação com aquela cultura, paisagem ou saber e, depois, ativamos uma rede de contatos locais. Uma indicação quase sempre leva a outra. Conversamos com pesquisadores, associações, guias, produtores culturais e moradores da região, e cada pessoa ajuda a aproximar o projeto de novos personagens. Foi assim, por exemplo, na busca por pessoas ligadas às Cavalhadas, ao extrativismo Kalunga, às cavernas de Terra Ronca e à obra de Cora Coralina.
Meu trabalho é organizar essas pontes, apresentar o projeto, compreender a trajetória de cada pessoa e reunir informações sobre disponibilidade, localização, logística e possibilidades de participação. Nem toda indicação corresponde exatamente ao recorte inicial, então também faz parte da produção refinar essa busca até encontrarmos a história mais alinhada ao projeto.

Como você identifica se a história de um possível personagem pode render?
Camila Almeida: mais do que um “currículo” interessante, procuro entender se existe uma relação vivida com o tema. A história começa a ganhar força quando a pessoa traz memórias, experiências, conhecimentos e uma conexão com aquele território.
Também observo se essa trajetória pode ser traduzida em imagens e ações. Não é apenas o que a pessoa pode contar, mas também o que podemos acompanhar e registrar: um preparo com ingredientes do Cerrado, uma recitação, um trabalho artesanal, uma caminhada por uma caverna ou uma tradição transmitida entre gerações.
Outro ponto importante é perceber se a história individual ajuda a revelar algo maior sobre o Cerrado. Quando a experiência pessoal do personagem se conecta à cultura, à memória, ao patrimônio ou à preservação do território, entendemos que existe potencial narrativo.
As pessoas costumam ser amistosas ou há resistência em falar?
Camila Almeida: de forma geral, as pessoas têm sido muito receptivas e generosas. Muitas demonstram orgulho da própria trajetória e vontade de contribuir, além de indicarem outros nomes e ajudarem com informações locais.
Algumas apresentam dúvidas iniciais sobre o formato da participação, o tempo necessário, os deslocamentos, a remuneração ou a maneira como a história será abordada. É uma cautela natural. Por isso, procuro explicar com clareza que a conversa não será uma entrevista engessada e que a intenção é construir o registro com respeito à história e ao conhecimento de cada personagem.
Um caso que me marcou foi o do Adail, ligado às Cavalhadas de Pirenópolis. Além de aceitar compartilhar a própria trajetória como cavaleiro e Rei Cristão, ele contou que possui sobrinhos e netos que podem representar a continuidade da tradição. A partir dessa conversa, surgiu a possibilidade de construir uma fotografia envolvendo diferentes gerações. Ele ainda nos conectou a outras pessoas da cidade, inclusive a quem produz e disponibiliza as roupas e máscaras tradicionais. É um exemplo muito bonito de como uma conversa abre caminhos e amplia a narrativa do projeto.