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Chapada dos Guimaraes (MT). Foto: Leo Drumond/NITRO

A vida no Cerrado

Expedição por nove estados brasileiros documenta o Cerrado em sua imensidão natural e cultural

 

Não é de hoje que o Cerrado faz parte das histórias visuais da NITRO. Ao longo de mais de duas décadas de trabalho, sua paisagem compôs projetos emblemáticos como “Anta – O Filme”, “Urucuia Grande Sertão Veredas” e “O cerrado é um pedaço de mim”, só para citar alguns exemplos.  A cada projeto concluído, crescia também a vontade de ficar, de mergulhar mais fundo: não apenas no que se vê, mas no que se vive.

Foi no início de 2026 que esse desejo começou a se materializar. O grupo Inpasa, com ampla atuação no Brasil, queria prestar uma homenagem ao cerrado e fez o convite ao fotógrafo Leo Drumond – proposta que se revelaria o ponto de partida de uma grande jornada pelo bioma. “Tivemos total liberdade para pensar o projeto, para escolher documentar o aspecto humano e cultural, tão fundamentais para a identidade do cerrado, mas menos conhecido que o ambiental”, explica Drumond. A partir dessa ideia, surge “Cerrado: a raiz do Brasil”.

 

Grupo folclórico Flor Ribeirinha, de Cuiabá (MT). Foto: Leo Drumond/NITRO

Diversos Cerrados

Por meio de pesquisas da NITRO com a historiadora Marina Camisasca, levantaram-se dados, tradições, culturas e identidades de diversas regiões, até chegar aos nove estados mais representativos para o Cerrado brasileiro: Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Tocantins, Maranhão, Piauí e Distrito Federal.

“Acionamos nossa rede de contatos em diferentes territórios para nos indicar pessoas que seriam os personagens. O mais fascinante é que, começada a expedição, essa busca continuou, um personagem nos apontou outras culturas, outros personagens e surgiram novas histórias. Essa é uma dinâmica marcante do projeto. A previsão era rodar 5 mil quilômetros ao todo, e já percorremos mais do que isso nas primeiras rotas, que compreenderam Minas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás.”

Leo Drumond relata que as histórias são encantadoras e que é “difícil dizer quais foram as mais marcantes até o momento, já que todas têm uma dimensão muito especial de quem vive do cerrado, com o cerrado e no cerrado. Mas para citar alguns exemplos, tem o grupo Flor Ribeirinha, de Campo Grande; também de lá, a Cecília, uma menina que transformou seu gosto por observar as aves em livro. Em Minas encontramos a Marluce, artesã que trabalha com fibra de Buriti. Tem o Nereu Rios que dedica sua vida ao plantio de árvores típicas do Cerrado.”

 

Grande Sertão Veredas, na região de Chapada Gaúcha (MG). Foto: Leo Drumond/NITRO

Amor profundo

Nereu Rios, ambientalista e professor de Campo Grande, vem marcando o Brasil com sua atuação. Segundo Gustavo Nolasco, à frente do livro e roteiros do projeto, há 40 anos o ambientalista transforma sementes nativas do Cerrado em mudas destinadas à recuperação ambiental – essas mudas já deram origem a mais de um milhão de árvores por todo o país.

“Para mim, existe um grupo de pessoas completamente diferenciadas no mundo. São pessoas mágicas. Não no sentido da magia, do tirar um coelho da cartola, mas sim do ‘mágico’ no sentido do ‘encantamento’. O Nereu é isso. Ele representa o amor mais profundo ao Brasil que se possa ter. Seu trabalho de coletar sementes de árvores nativas do Cerrado e cuidar para que elas eclodam e voltem a crescer árvores, é um dos mais importantes e lindos já feitos em prol da biodiversidade brasileira. Para muitos povos indígenas, na natureza estão os espíritos, os saberes, a quais dão o nome de ‘encantados’. Nereu ainda não virou árvore, mas já é sim um ‘encantado’.”

O próprio Nereu conta que o seu trabalho é, além de uma missão, um caso de amor pela natureza. “Não sobrevivo de coleta de sementes, nem do plantio de árvores. Tenho outras atividades para cumprir com os meus boletos. Ontem mesmo, na Chapada dos Veadeiros, vi árvores que plantamos há 12 anos florescendo, espécies como Cega Machado, Bacupari, isso não tem preço. É o que nos alimenta e nos faz acreditar em um mundo melhor. Ao mesmo tempo, é dolorido ver o crescimento do desmatamento, da monocultura, a urbanização inadequada destruindo milhares de árvores nobres, centenárias. Muitas matrizes que coletei este ano, talvez não consiga coletar ano que vem. Isso machuca muito, vejo que estamos caminhando para o caos, mas não desistimos.”

Ao longo da sua jornada, Nereu Rios já planou mais de um milhão de árvores. Todavia, ele diz que diante do que derrubam, esse número perde a força. “Por isso o nosso objetivo é despertar a consciência, o amor pelas árvores. Elas contam histórias, remetem à infância, a amizade, representam uma conexão entre o homem e a natureza. Seguimos, apesar de tudo, tentando despertar essa consciência, emanando esse amor pelas árvores.”

Para ele, “Cerrado: a raiz do Brasil” vai despertar não só interesse, mas esse amor pelo bioma. “Fiquei feliz de conhecer o projeto, de ter participado. É mais uma luz para o Cerrado, mostrando sua cultura, sua natureza, essa integração que forma sua amplidão pelo país, para além do aspecto ambiental. Afinal, o Cerrado são seus patrimônios, fazeres, suas sementes, sua cura.”

 

O ambientalista Nereu Rios, no Parque das Nacões Indígenas em Campo Grande (MS). Foto: Leo Drumond/NITRO

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