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As irmãs Gercy e Lourdes, com 102 e 100 anos, respectivamente. Foto: Leo Drumond/NITRO

A vida acontecendo agora

 

Fotógrafo, documentarista e artista visual, Gui Christ assina a curadoria da exposição Centenários, em cartaz no Centro Cultural SESIMINAS, em Belo Horizonte, até 3 de janeiro de 2027. Neste bate-papo, ele conta mais sobre seu envolvimento no projeto e aborda o papel da fotografia para falar de memória e presente.

 

Como foi o processo de curadoria da exposição Centenários, a escolha do que destacar em imagens de grandes proporções ao lado de detalhes bonitos dos personagens?

A curadoria partiu de uma ideia simples: contar histórias que cabem dentro de um século de vida, mais que os cem anos em si. O número é impressionante, mas não conta tudo. O que me interessava nas fotos feitas pelo Leo Drumond eram os gestos, os objetos, os espaços, as relações, a vida que está acontecendo agora. Escolher as imagens foi, portanto, escolher aquilo que pudesse revelar essas histórias para além dos lindos retratos.

As fotografias grandes trazem os personagens para perto. Dão corpo, presença e escala para essas vidas. Quero o público olhando de pertinho, percebendo os detalhes e, de alguma forma, interagindo com essas imagens. Uma mão, um objeto, uma fotografia antiga, um canto da casa, um gesto. São imagens que pedem outro tempo de olhar. A ideia era justamente criar esse movimento entre aproximação e distância, entre aquilo que se revela de imediato e aquilo que a gente precisa chegar mais perto para perceber.

Newton Lima, de 102 anos, em seu apartamento em Belo Horizonte. Foto: Leo Drumond / NITRO

 

O que mais chamou sua atenção no projeto?

A possibilidade de conhecer essas pessoas para além da idade. Durante o processo de curadoria, fui percebendo que cada centenário tem uma relação muito particular com o tempo, com o corpo, com a família, com a casa e com a própria história. Também me chamou atenção perceber que o projeto não romantiza a velhice. Tem autonomia, tem força, tem alegria, mas também tem dependência, perdas, limitações e a necessidade do cuidado. Acho que essa diversidade foi uma das coisas que mais me interessou como curador.

E talvez tenha sido isso que mais ficou comigo: perceber que cem anos não encerram uma história. Pelo contrário. Existe muita vida acontecendo depois dos cem. E olhar para essas pessoas me fez pensar também no meu próprio tempo, naquilo que estou construindo agora e no que, um dia, pode permanecer de mim.

 

Centenários fala de memória, mas também de presente, da cultura do cuidado. Qual o papel da fotografia nesse contexto?

Essa pergunta me toca de uma maneira muito pessoal porque sou — ou fui — neto e bisneto de duas mulheres centenárias. Então, quando comecei a olhar para essas histórias, não estava diante de um tema completamente distante. Existe uma memória afetiva minha atravessando esse projeto. Talvez por isso eu tenha percebido com tanta força que a memória não está apenas nas histórias que contamos sobre quem viveu muito, mas também nos gestos, nos objetos, nas casas e nas relações que permanecem.

E é aí que a cultura do cuidado ganha uma dimensão muito importante. Uma vida longa nunca é construída sozinha. Ela envolve uma rede de afetos, de filhos, netos, companheiros, amigos e cuidadores. Ao longo da curadoria, fui percebendo como essas relações também contam a história de cada personagem. Cuidar é uma forma de presença, mas também uma maneira de manter uma memória viva e de transmitir algo entre gerações.

Para mim, a fotografia faz justamente essa ponte entre o que passou e o que ainda está acontecendo. Ela preserva uma memória, mas também nos chama para o presente. Por ter convivido com duas mulheres centenárias eu aprendi a olhar para essa idade não como memória, mas como presença, vínculo, afeto e vida acontecendo agora.

 

 

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