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José de Jesus, mais conhecido como Dudu, de 102 anos, em sua casa em Belo Horizonte. Foto: Leo Drumond/NITRO

Retratos e histórias do século

 

Exposição mostra quem são os brasileiros e brasileiras que passaram dos cem

 

Cem anos de vida. É impossível ler esse número e não se espantar, sobretudo em um país que só nas últimas décadas convive (felizmente) com o crescimento da longevidade. Mas a exposição Centenários olha para esse marco para além dos números. As fotografias e histórias que integram a mostra investigam quem é a pessoa por trás dos cem: quais são suas manias, costumes, seus rituais. Como é viver os acontecimentos de um século com o vigor de um corpo que resiste ao tempo.

A escritora Carolina Grohmann, idealizadora do projeto ao lado do fotógrafo Leo Drumond, conta que, mais que a idade, Centenários nasce de uma vontade genuína de saber como essas pessoas contam sobre si, a leitura que fazem do presente. “Eles estão entre nós: cada vez mais ouvimos falar de alguém que chegou ou passou dos cem.”

“Tem a ver também com a oportunidade de contar mais histórias”, ressalta Grohmann. “Me envolvo em projetos que sempre tem pessoas velhas e em um reencontro do ensino médio, estava numa roda em que cada um falava o rumo profissional que tomou. Na minha vez, uma colega se adiantou  ‘a Carol a gente já sabe, sempre conta história de velhinhos hahahahaha’. Eu achei isso genial!”.

Em 2022, ela se encontrou com Drumond para falarem de novos projetos. Entre muitas e boas ideias, estava Centenários – que logo cativou o fotógrafo. “O projeto me tocou imediatamente de diversas formas, por estar ciente da questão do envelhecimento no país, por ter convivido muito com os meus avós até o fim da vida deles.” E tem ainda a questão das ambiguidades da vida, ele completa. “É um momento em que a pessoa está muito forte e muito frágil ao mesmo tempo. Lembrei de um trabalho que fiz em uma UTI neonatal. As crianças acabaram de nascer, mas tinham que lutar pela vida.”

 

As irmãs Gercy e Lourdes, com 102 e 100 anos, respectivamente. Foto: Leo Drumond / NITRO

Desejo de expansão

Centenários nasceu para ser um livro e um filme com pessoas de todo o Brasil. Mesmo sem patrocínio, o projeto começou a ganhar corpo em uma pesquisa que identificou pessoas acima dos cem. A partir do “boca a boca”, Drumond e Grohmann receberam indicações de centenários que orbitavam o dia a dia de amigos e familiares e partiram para a documentação oral e fotográfica em Belo Horizonte, interior de Minas Gerais e na cidade de São Paulo.

Foi quando surgiu a oportunidade de exibirem as histórias já documentadas em uma exposição no SESIMINAS, em Belo Horizonte  – o que tornaria o projeto mais conhecido e abriria caminho para sua expansão pelo Brasil. A mostra, composta de retratos em grande dimensão dos centenários e suas histórias, teve curadoria do fotógrafo Gui Christ e permanece em cartaz até o dia 3 de janeiro de 2027.

“O sonho do livro é uma busca constante, mas o principal é sempre poder contar a história. A exposição tem a facilidade de acesso, chega de uma outra forma para o público. E isso é muito legal”, conta Carolina Grohmann.

Para Leo Drumond, ver os centenários na abertura da exposição em Belo Horizonte, no dia 3 de outubro, “foi emocionante e motivador para realizarmos um projeto nacional. Assim como a história surpreendente do Dudu (centenário que tem o costume de subir no telhado de sua casa) e do Luisinho, uma figura mítica de 118 anos, existem muitas histórias que merecem ser contadas, na Bahia, por exemplo, que é estado brasileiro com mais centenários, mesmo sem ser o mais populoso.”

 

Dona Lia, com 101 anos. Foto: Leo Drumond / NITRO

Cultura do cuidado

Os desafios do cuidado também é um tema ganha destaque na exposição Centenários.  Segundo Carolina Grohmann, os dados mostram que as mulheres são a imensa maioria na linha de frente do cuidado com os mais velhos. “E é importante lançar um olhar atencioso, mas nada romântico, para essa realidade. Cuidar é um desafio. É trabalho. Porém, a maioria das famílias não tem recursos para pagar por um acompanhamento profissional, o que gera um enorme desgaste físico, emocional e relacional.”

A escritora lembra que existe o desejo coletivo pela longevidade, mas ele precisa vir acompanhado de políticas públicas urgentes que garantam uma vida digna na velhice. “As pessoas costumam se impactar ao ver pessoas velhas ativas, ainda trabalhando, mas nem sempre se perguntam se elas continuam ali por escolha ou por necessidade, seja para pagar um plano de saúde ou colocar comida na mesa. É uma questão complexa.”

Para ela, Centenários traz a oportunidade de aproximar esse debate sem precisar ser didático. “Usar a história e o afeto como ponte para reflexões mais profundas é o caminho mais poderoso para provocar uma transformação real.”

 

O supercentenario Lusinho, com 118 anos. Foto: Leo Drumond / NITRO

 

A exposição Centenários está em cartaz na galeria do SESIMINAS, em Belo Horizonte, até o dia 3 de janeiro de 2027. A galeria fica aberta diariamente das 8h às 19h e a entrada é gratuita.

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