Quando o artista britânico Edward Lear desenhou, em 1830, uma arara de penas azul cobalto, com uma mancha amarelo vibrante no bico, não se fazia ideia do impacto que a ilustração teria para a espécie. Até então desconhecida, foi a partir de seus traços realistas que a ave passou a ser descrita pela ciência como Anodorhynchus Leari, quase 30 anos depois. Também foi a sua obra que levantou um dos maiores mistérios da ornitologia: a origem da arara-azul-de-lear.
Por mais de 100 anos esse enigma rondou a comunidade científica e só foi desvendado, do outro lado do Atlântico, pelo naturalista alemão Helmut Sick, um obcecado pela origem da arara. Enviado ao Brasil como preso político na Segunda Guerra Mundial, ele decidiu ficar no país ao fim do conflito para continuar sua busca. E ela só chegaria ao fim em 1978, no Raso da Catarina, sertão baiano.
Até hoje a paixão pela mítica ave segue acesa, que o diga a bióloga Érica Pacífico, que lidera o maior projeto de conservação da arara-azul-de-lear – história documentada por outros apaixonados pela espécie: João Marcos Rosa e Gustavo Nolasco. Eles, que já refizeram o trajeto de Sick pelo sertão e o narraram no livro “Jardins da Arara de Lear”, produziram filme, reportagens e documentários fotográficos sobre a arara que corre sério risco de extinção (existem pouco mais de 2.500 indivíduos).

Nuvem de araras
“Elas são apaixonantes. Quando levantam voo e formam uma nuvem de araras, você fica arrepiada. Qualquer pessoa que presencie essa cena fica arrepiada”, conta Érica Pacífico (que estava em campo, às 4 da manhã) por mensagem de áudio. Para ela, o trabalho com a arara extrapola a ciência, está ligado ao seu crescimento pessoal, à sua forma de se relacionar com a natureza e com os sertanejos.
Paixão que inspira uma nova geração de conservacionistas: Pacífico já formou mais de 100 alunos e alunas. “Hoje temos uma equipe sólida, são as mesmas pessoas trabalhando há 19 anos na conservação da arara-azul-de-lear. Seu Carlos e dona Lúcia fazendo comida pra gente. O Guilherme, guia de campo, que começou novinho e hoje é pai de família. O Máximo, que é um ‘McGyver’ do projeto. Unimos pessoas bem formadas e envolvidas com a conservação da arara, que são moradores locais. E eles estão engajados nessa causa. São referência para toda a comunidade. ”
Ela relata, contudo, que esse reconhecimento é fruto de um longo processo de educação ambiental e um aprendizado de mão dupla. “Eu também precisei aprender com os sertanejos sobre a arara, sobre o seu papel na conservação da espécie. Sabemos que existem conflitos, pois elas atacam o cultivo, acabam sendo eletrocutadas em postes de energia que não existiam antes. O trabalho com os sertanejos para identificar problemas é fundamental, pois são eles os responsáveis por proteger a espécie. E, juntos, buscamos estratégias para minimizar as ameaças.”
Paixão antiga
João Marcos Rosa conta que a arara-azul-de-lear sempre esteve no seu imaginário, desde que começou a trabalhar com fotografia de natureza e jornalismo ambiental. Por volta de 2010, ele conheceu o ornitologista Luiz Fabio da Silveira, diretor do museu da USP. “Ele comentou que uma aluna estava trabalhando com a espécie. A aluna era a Erica Pacífico.”
“No ano seguinte eu estava em Salvador para uma palestra e fui convidado a escolher outra cidade baiana para conhecer. Escolhi Jeremoabo, no Raso da Catarina. Fiquei completamente impactado pela paisagem, e, em especial, pelas araras nos paredões de arenito. Busquei mais informações com as pessoas do lugar e procurei a Érica, que estava trabalhando na região. Esse foi o começo da nossa primeira história sobre a arara, uma reportagem para a National Geographic.”
Nesse período, as portas se abriram para um universo muito mais amplo, relata Rosa. “Desde a história de descoberta da espécie, a história da conservação, dos sertanejos, da comunidade, que a protege, dos dados da pesquisa. Pensar que esse assunto é tão rico e tão pouco difundido, foi o que me motivou a ir atrás dessa história para contá-la a um público mais amplo.”
Depois do documentário fotográfico para a National Geographic vieram o filme “Arara de Lear: soltura no Boqueirão da Onça”, o livro “Jardins da Arara de Lear” e o episódio da série Mulheres na Conservação, sobre a história de Pacífico.

Mulheres que encorajam mulheres
“A oportunidade de participar do Mulheres na Conservação foi um marco na minha carreira”, relata Érica Pacífico. Segundo ela, o projeto a fez se enxergar de outro jeito – “não me via como uma mulher na linha de frente da conservação. Uma mulher que está passando perrengue pelo fato de ser mulher.”
Ela conta que o projeto a levou também a compreender a responsabilidade de continuar atuando na luta da inclusão da mulher na ciência. “Graças a esse filme recebo muitas mensagens de mulheres, meninas, alunas que querem ser como eu sou, que querem trabalhar comigo na linha de frente da conservação. Elas se sentem encorajadas. E isso é tão importante.”
Ela conta que é de uma geração inspirada pela Neiva Guedes, referência mundial na conservação da arara-azul-grande. “Fui atrás dela, pedi ajuda: ‘me ensina a pesquisar em campo, quero trabalhar com a arara-azul-de-lear e fazer o que você faz’. Ela foi uma mentora e ainda é, para a pesquisa, gestão de pessoas, gestão de logística. É minha musa inspiradora. Sou muito sortuda em tê-la como referência.”
Antes de Guedes, ainda na faculdade, a grande inspiração de Pacífico foi Yara Schaeffer Novelli, referência no estudo de manguezais. “Ela foi minha supervisora no trabalho de iniciação científica. A convidei a fazer uma palestra na minha turma e ela falou tantas coisas lindas. Me fortaleceu, ficou impactada com a minha dinâmica e ali plantou uma sementinha – se eu posso ser uma pesquisadora de campo, você também pode ser. Hoje estamos juntas representando um grupo de mulheres que lideram pesquisas.”
Outras duas grandes inspirações são Patrícia Medici e Flávia Miranda. “Em um congresso de zoologia, assisti à palestra da Medici na primeira fileira. Fiquei encantada com sua pesquisa com as antas, com o monitoramento. Pensei: quero ser como ela. A Flávia Miranda foi minha colega de aprimoramento em manejo de fauna, no zoológico de São Paulo, ela como veterinária eu como bióloga. Ela me falava coisas muito importantes, você é boa, tem potencial, tem que ir embora, tem que ir para a conservação. Foi um incentivo e tanto. Todas essas mulheres foram minhas guias.”
Sertanejos
Para João Marcos Rosa e Gustavo Nolasco, tão instigante quanto a história da arara-azul-de-lear, é a história dos sertanejos que convivem e protegem a ave. “Esse é o lugar que mais gosto. São as pessoas que mais gosto. Elas amam o sertão, apesar de toda a dificuldade que é viver em uma região de semiárido”, conta Nolasco.
No livro “Jardins da Arara de Lear”, eles refizeram o percurso de Helmut Sick em busca da ave, a partir dos sertanejos que cruzaram o caminho do naturalista. “Fomos falar de um bicho, mas ouvimos as pessoas que estiveram com o Sick. Pessoas que estavam mais velhas, inclusive. O mais bacana é que conseguimos, assim, humanizar a história de um animal.”
O livro, destaca Nolasco, não se atém à observação da espécie. “São histórias de amor pela ciência, do Sick por essa missão que ele não abriu mão. E ele só conseguiu encontrar a arara graças aos sertanejos. Fazer uma história de valorização dessas pessoas foi o que mais me marcou e me emociona até hoje.”

Em mais de 15 anos de campo pelo sertão, João Marcos Rosa lembra, entre os muitos encontros com os sertanejos, de Seu Zequinha, morador da Toca Velha, em Canudos, um dos primeiros guardiões das araras. “Uma pessoa de coração imenso e conhecedor profundo do sertão. Sempre nos recebeu de portas abertas, com um cafezinho passado na hora, para compartilhar as informações, nos indicar e nos levar aos lugares.”
Seu Zequinha faleceu no ano passado, mas seu legado segue vivo nas histórias visuais. “O audiovisual tem esse poder de transportar o espectador para dentro da paisagem e da história do personagem. É uma ferramenta de comunicação muito completa, que une beleza e a força das imagens, das palavras, do som para aproximar o público de algo que está distante.”
Nolasco lembra ainda da surpresa do público ao ver os filmes ou ler o livro sobre a arara-azul-de-lear. “A pessoa acha que é um filme, um livro, sobre ciência, mas tem muita poesia, personagens que cativam o público e o envolvem a ponto de inspirarem novos guardiões.É muito gratificante poder usar a nossa profissão em prol de uma causa bonita, sensível e importante como a conservação.”
Clique aqui e assista ao filme Arara-de-Lear: Soltura no Boqueirão da Onça
Clique aqui e assista ao episódio da série Mulheres na Conservação com Érica Pacífico