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“A maioria do povo quer que eu seja patrimônio de Tiradentes. Por consideração, eu sou.”

 

Conhecer uma cidade vai além de visitar seus pontos turísticos, marcos históricos ou arquitetônicos. É preciso saber quem são as pessoas que vivem esses espaços, e ali constroem sua cultura e memória. Contudo, em uma sociedade que tem na materialidade sua maior noção de valor, histórias de vida costumam ficar guardadas ou são repartidas entre poucos e próximos.

Não foi o caso de Tião Paineira, uma das personalidades mais marcantes que passou pelo Projeto Moradores. Ceramista conhecido em Tiradentes (MG) por seus apitos de barro que lembram o canto de pássaros e por ser um exímio contador de histórias – compartilhava seus causos, e os herdados do pai e avô, aos quatro ventos. Com a chegada do projeto na cidade, viu a oportunidade de fazer suas histórias chegarem ainda mais longe: foi um dos primeiros a entrar na tenda branca, em 2012.

“O Tião Paineira representa, para o Moradores, a certeza de que tínhamos uma missão muito bonita a ser cumprida: a de dar voz e destaque para as pessoas como sendo o maior patrimônio que uma cidade pode ter”, conta Gustavo Nolasco, um dos idealizadores do projeto, ao lado de Alexandre Baxter, Bruno Magalhães e Marcus Desimoni.

Tião Paineira na primeira edição do Projeto Moradores, em Tiradentes (MG) em 2012.

“Obviamente, no conceito técnico, uma pessoa não pode ser um ‘patrimônio’. Mas no sentido figurativo, Tião foi um patrimônio para Tiradentes por ser um mestre do saber e manter viva tradições, como a da cerâmica. Ele foi uma das primeiras pessoas a entrar na tenda do Moradores em toda a história do projeto. E sua resposta a uma de nossas perguntas resume tudo isso – ‘Tião, você se considera um patrimônio de Tiradentes?’ E a resposta dele foi: ‘A maioria do povo quer que eu seja patrimônio de Tiradentes. Por consideração, eu sou.’”

Com a participação do Tião no Moradores, a equipe conseguiu entender e amarrar o conceito do projeto que defende as pessoas e suas histórias como patrimônios de uma cidade, lembra Alexandre Baxter.  “Ele representou exatamente isso, dando sentido a tudo que pensávamos. Conhecer sua história, ouvir seus causos, valorizar seu trabalho de ceramista, tudo isso foi ao encontro do que estávamos propondo.”

Caixinha de recordações

Dez anos depois, o Projeto Moradores voltou a Tiradentes e contou com a participação dos netos de Tião Paineira, Mariana e Gabriel Paineira, que mantêm o legado do avô – momento que significou a confirmação e renovação do projeto – ressalta Gustavo Nolasco. “Confirmação no sentido de que ao voltarmos tanto tempo depois e percebemos que ficaram marcas da primeira edição do Moradores nos mostrou que aquele sonho de criar um projeto para gerar orgulho nas pessoas em relação às suas próprias histórias de vida, tinha dado certo. E renovação porque não há relação estável de 10 anos que não se desgaste ou se questione, não é? Para nós quatro, autores do projeto, voltar, mergulhar no nosso passado e ver no presente que valeu a pena, nos deu força e tesão para continuar. E lá vamos nós para 15 anos do Moradores daqui a pouco.”

Tião Paineira e Marcus Desimoni na primeira edição do Projeto Moradores, em Tiradentes (MG) em 2012.

Para Baxter, “ver as novas gerações seguindo com a história da família, ver as fotos do Moradores guardadas na caixinha de recordação, perceber a importância daquelas fotos, daqueles momentos, foi fundamental para continuarmos acreditando no projeto. Acreditando na nossa proposta, que os nossos conceitos fazem sentido e nos dão vontade de seguir por muitos lugares contando estas histórias e compartilhando nossas ideias sobre patrimônio e fotografia.”

Experiência poética

Ao ouvir histórias de vida e transformá-las em exposição de fotos e em filme documentário, o Projeto Moradores dá visibilidade a mestres e mestras do saber, sejam anônimos ou conhecidos, como Tião Paineira. Visibilidade em um sentido amplo – “mais do que visibilidade do outro, o mais importante é a ‘visibilidade do eu’, é o se enxergar, se valorizar e sentir orgulho da sua própria história”, sublinha Gustavo Nolasco.

As pessoas se sentem tocadas pela própria história e pelas histórias dos outros, acrescenta Baxter. “Isso cria um sentimento de pertencimento com aquele lugar, com aquelas pessoas e histórias. Muitos que entram na tenda saem, de alguma forma, entendendo o sentido e a importância de compartilhar e valorizar suas memórias”.

Gustavo observa que em um mundo cada vez mais consumista do descartável e do efêmero, o Moradores dá uma contribuição fundamental para questionar as relações, o modo de vida para o qual a sociedade caminha. “Faz isso ao proporcionar uma experiência poética. “Isso mesmo, para mim o Projeto Moradores só existe até hoje porque é uma experiência para as pessoas que exalta a importância de se valorizar a cultura popular, a cultura oral, a preservação de bens e saberes.”

Falta reconhecimento  

Por mais que os saberes tradicionais, seus mestres e mestras, estejam na base do patrimônio cultural, na identidade de uma região, boa parte não é reconhecido como produtor de conhecimento – o que não vai mudar tão cedo, lamenta Nolasco. “Hoje, infelizmente, a sociedade está engolida pela comunicação via redes sociais e algoritmos. Ou seja, toda mudança passa pela decisão de quem domina essas comunicações de massa. E tendo em vista que a forma maligna que tem dado certo se baseia em informação descartável/ negativa e odiosa/rasa, acho muito difícil que a preservação, valorização e divulgação de saberes tradicionais e patrimônio seja uma bandeira econômica dessas pessoas.”

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