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Da ND ao filme Tempo Vário

Há 13 anos, a oficina ND discute novos jeitos de fazer e pensar a imagem; recentemente foi o ponto de partida para a realização do filme “Tempo Vário: a história da Folhinha de Mariana”.

 

 

Neutral Density, ou ND, é um filtro usado na fotografia e no cinema para rebaixar a luz, sem alterar as cores. Isso acontece porque ele torna a velocidade do obturador mais lenta. Uma espécie de óculos de sol. Esse conceito, aparentemente técnico, sugere uma ideia mais complexa: pensar o que está por trás da imagem, o quão vasto é esse universo e o que pode surgir dele.

Nos idos de 2012, esse era um dos pensamentos que rondavam a cabeça de Bruno, Gustavo, João, Leo e Marcus. Por que não, expandir essa ideia em uma nova produção? A partir dessas questões, e inspirados pelo Mesa e Cadeira, uma oficina de produção de conteúdo que Leo Drumond acabara de participar, surgia um outro ND, ou melhor, a ND – uma oficina para discutir novos jeitos de se fazer imagens.

“A imersão do Mesa juntava gente do texto, do design, da imagem para produzir algo concreto ao final. Diferente das oficinas da época, com muita teoria e etéreas em termos de entrega. Juntamos essas vontades e criamos a ND. A primeira edição foi em 2013, durante o Foto em Pauta, em Tiradentes, e produziu uma revista impressa, de título homônimo à oficina, como entrega final. ”

A primeira oficina ND foi realizada em 2013, no Foto em Pauta, em Tiradentes (MG).

 

As oficinas ND ficaram tão conhecidas no meio audiovisual que a NITRO era sempre convidada a realizar cursos de fotografia e vídeo, embora o formato tradicional nunca tenha atraído os contadores de histórias, lembra Drumond. “Gostamos das oficinas mais intensas, em períodos mais curtos, talvez uma influência dos festivais que frequentávamos. O processo educativo com um objetivo concreto tem um valor muito grande. Primeiro porque gostamos de realizar, de produzir. E fica muito mais satisfatório para quem participa. A pessoa aprende, põe a mão na massa e vê os frutos do próprio trabalho”

Tempo Vário e os frutos da ND

Nas primeiras edições da oficina, a NITRO fez questão de que as revistas fossem impressas, para que as pessoas saíssem com algo na mão. A ND nasce com essa característica forte, que futuramente influenciou outros projetos, como a Estrela: uma série de revistas impressas produzidas ao lado de pessoas privadas de liberdade; o Fotografe o Jubileu, que gerou uma exposição em uma das festas religiosas mais antigas do Brasil, o Jubileu de Matozinhos; as oficinas do GCriva, com vários produtos audiovisuais em Vespasiano, na grande BH; e, recentemente, o documentário Tempo Vário, considerado a principal fonte histórica sobre a Folhinha de Mariana.

Oficina da revista A Estrela realizada com detentas do Complexo Penitenciário Estevão Pinto, em Belo Horizonte.

Gustavo Nolasco conta que o documentário surgiu de um “casamento” de desejos. “Temos uma parceria com o Museu de Mariana, já que a exposição do Projeto Moradores compõe o acervo do museu desde a sua abertura. Depois veio o nosso desejo de realizar uma etapa da ND na cidade, e a vontade do Museu de produzir um filme sobre a Folhinha, já que os seus historiadores estavam produzindo uma pesquisa sobre esse almanaque centenário e patrimônio cultural de Mariana. Daí foi ‘trocar as alianças’: resolvemos realizar o documentário a partir do processo educativo e criativo da ND.”

De lá pra cá, muita coisa mudou na ND, e outras tantas permanecem, ele conta. “Hoje temos uma maior flexibilidade quanto ao tempo para a produção dos conteúdos finais. Inicialmente, tínhamos o objetivo de realizar tudo em poucos dias ou horas. Com o passar do tempo, vimos que isso limitava as possibilidades de produtos mais bem acabados, como foi o caso do Tempo Vário. O que nós mantivemos foi exatamente ter um produto final a cada oficina: isso é a cara e o DNA da ND.”

Uma relação de mão dupla

O que também atravessa o tempo é o desejo da ND de estabelecer trocas e conhecer novos jeitos de pensar a imagem. “Sempre aprendemos muito com todo o processo, já que encaramos como uma relação de troca, nunca de professor-aluno”, ressalta Drumond. “A educação verdadeira é essa de mão de dupla. Ensinar e aprender, todos os dias, com todos”, completa Nolasco.

Segundo ele, na última década, tanto o uso da comunicação quanto as técnicas de audiovisual se modificaram em uma velocidade alucinante. “A geração que está chegando ao mercado de trabalho agora já nasceu com as redes sociais. Nós nascemos com os jornais impressos, as máquinas de escrever e as câmeras analógicas. Para a NITRO é fundamental essa troca. Não só pelas técnicas e equipamentos, mas para estar em contato com as novas formas de se ouvir e contar histórias.”

O que não deixa de ser desafiador, observa Lucas de Godoy, da Vellozia Filmes, co-realizador de Tempo Vário. “Participar de uma oficina de audiovisual em tempos de inteligência artificial foi um desafio instigante. Ao longo do processo foram colocadas frente a frente imagens feitas com câmeras digitais, celulares de última geração e até mesmo gravações dos anos 1950 feitas por uma câmera analógica Bell & Howell 8 mm (em que o filme tinha que ser mandado para o Panamá para ser revelado e demorava meses até chegar de volta com o resultado obtido).

Para Godoy, as trocas com os educadores do Museu de Mariana estimularam, não só o aprimoramento técnico, mas, principalmente, o reconhecimento da importância de documentar as histórias que giram em torno de um patrimônio vivo. “A partir dessa confluência de gerações, pudemos sentir o valor de agregar as diferentes mídias com o objetivo maior que atravessa temporalidades e tecnologias para cumprir um dos papéis fundamentais do audiovisual: salvaguardar histórias do nosso patrimônio. O Museu de Mariana é um espaço vibrante que tem como característica estar em consonância com o agora e, não só, com o patrimônio passado e de pedra e cal, cumprindo assim a verdadeira função social dos museus.”

 

O documentário Tempo Vário está disponível em nosso canal do YouTube até o dia 22 de fevereiro. Clique aqui para assistir.