Em meio às letras, números, ciência e história, aprendemos sobre o mundo (enquanto construímos o nosso). É na escola que vivemos as primeiras descobertas, aventuras, amores, conflitos, memórias que perpassam o tempo e ganham novas possibilidades no Projeto Moradores Educação.
Atuando pela democratização do acesso à cultura desde 2012, o Moradores nasceu com o propósito de valorizar as histórias de vida como o maior patrimônio que uma cidade ou território podem ter. Agora, em seu mais recente formato, o valor das memórias é despertado logo cedo, no ambiente escolar.
Das praças, ao pátio da escola
Com 13 anos de estrada, o Projeto Moradores começou na pequena Tiradentes, em Minas Gerais, durante o Foto em Pauta, e hoje já soma mais de 30 cidades visitadas pelo Brasil. “Na época, o projeto surgiu da ideia de envolver e valorizar a comunidade de Tiradentes, as pessoas que fazem e mantêm esse lugar vivo”, conta Marcus Desimoni, um dos idealizadores do projeto e sócio da NITRO.
Já o Moradores Educação nasce do encontro de dois desejos – do Ministério Público de Minas, de despertar o sentimento de pertencimento aos alunos das escolas estaduais – e da própria NITRO, que almeja transformar o projeto em uma metodologia que possa ser replicada por cidades ou instituições, como as escolas, relata Bruno Magalhães, também idealizador do Moradores.

“Não criamos exatamente uma metodologia, mas formatamos o projeto e realizamos uma conexão direta com a parte pedagógica formal. Todo o tempo do Moradores Educação contou como carga horária curricular, o que nos trouxe confiança de o projeto funcionar no contexto da educação. Ficamos muito felizes com o resultado e agora estamos observando essa parte formativa.”
As etapas do projeto são co-realizadas por alunos do ensino médio – que são produtores e protagonistas das edições. Primeiro eles participam de uma oficina de conteúdo, onde aprendem noções básicas de fotografia e vídeo (como captação de áudio e técnicas de entrevista). Depois partem para a prática: se fotografam e se entrevistam. No segundo momento, na tenda branca do Moradores, são convidados a contar as suas histórias e, ao final do projeto, o material se transforma em um filme-documentário e uma grande exposição fotográfica no espaço escolar.
Histórias de vida como patrimônio
Ao convidar alunos e funcionários para esse diálogo, o Moradores cria um espaço de valorização das histórias individuais como patrimônio da escola. Para Desimoni, “junto com os alunos, professores e toda a comunidade escolar, estamos revivendo suas memórias e recontando suas histórias.” O que valoriza o ambiente escolar, completa Magalhães. “Os alunos, professores, funcionários, toda a comunidade ficam muito felizes, já que o projeto levanta a bola da escola, traz um clima bom de valorização, de reconhecimento das pessoas como parte daquele lugar.”
Outro ponto destacado por ele é o viés profissional. Mesmo que o Moradores não tenha esse objetivo, alguns alunos ampliaram seu interesse pelo audiovisual, seja trabalhando em lojas de equipamentos ou lapidando o conhecimento de quem já tem o costume de fotografar, os direcionando para essa carreira.
Escolhas visuais
A tenda branca de contar histórias, uma das marcas do Moradores e que costuma gerar curiosidade, não é uma escolha aleatória. “É onde as pessoas se igualam pelas suas histórias e estética fotográfica”, conta Marcus Desimoni. No fundo branco, completa Magalhães, chamamos atenção para a pessoa em si e criamos uma unidade, não existe a ideia de um ser mais importante que o outro.
“Fazer retratos 3×4 de uma pessoa em uma tenda branca, isso certamente já foi feito. O que está por trás dessa história é o que diferencia o projeto”, lembra Desimoni. “O nosso objetivo é despertar no morador o orgulho de ser patrimônio de sua cidade. Vivemos um momento importante de transformação, onde, infelizmente, as identidades marcantes de cada cidade estão se perdendo rapidamente. Queremos que os moradores sejam vistos como uma riqueza cultural de suas comunidades, assim como aprendemos a enxergar as igrejas coloniais, o casario e os monumentos”.

Balanço e futuro do Moradores Educação
A primeira edição do projeto foi marcada pela diversidade das escolas, dos alunos e também pela sensação de missão cumprida, conta Marcus Desimoni. “Conseguimos despertar o sentimento de pertencimento e de cuidado com as escolas e deixamos a nossa metodologia para que esse cuidado continue em parceria com a direção e comunidade escolar.”
Para Magalhães foi desafiador, por ser algo novo, e igualmente positivo. “É recompensador ver que o projeto pode acontecer dentro do contexto da educação formal e futuramente pode tomar outros rumos, se transformar em uma plataforma onde as pessoas podem enviar suas histórias e assumir novos papeis. ”
Em 2026, o Moradores Educação segue para novas escolas, em comunidades quilombolas e indígenas do norte de Minas Gerais para finalizar, com chave de ouro, essa primeira rodada do projeto.
